A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de consulta e passou a executar sequências de tarefas, consultar bases, comparar registros e produzir respostas com relativa autonomia. Na auditoria, esse avanço abre espaço para fluxos conduzidos por IA agente, também chamada de inteligência artificial agêntica. O ganho potencial é relevante, mas a autonomia do sistema aumenta a exigência de governança, validação e supervisão humana.
O relatório global Risk in Focus 2026, do Institute of Internal Auditors, colocou a disrupção digital, incluindo IA, como o segundo risco de maior destaque no mundo e registrou forte crescimento dessa preocupação na América Latina. Em paralelo, as mesas-redondas promovidas pelo IAASB em 2025 e consolidadas em fevereiro de 2026 apontaram uma trajetória clara: a profissão caminha de aplicações isoladas para sistemas capazes de coordenar etapas inteiras do trabalho.
O que uma IA agente pode fazer em auditoria
Em vez de responder a uma pergunta única, um agente recebe um objetivo e organiza ações para alcançá-lo. Em um ambiente controlado, pode importar arquivos, conferir estruturas, cruzar razão e auxiliares, selecionar lançamentos incomuns, solicitar documentos faltantes, recalcular amostras e preparar uma matriz preliminar de exceções.
- conciliação entre razão, extratos, notas fiscais e sistemas auxiliares;
- testes de lançamentos contábeis e identificação de padrões atípicos;
- amarração de demonstrações financeiras e notas explicativas;
- classificação inicial de documentos e extração de dados;
- monitoramento contínuo de transações e indicadores de risco;
- preparação de papéis de trabalho, desde que submetidos à revisão profissional.
Essas atividades reduzem trabalho repetitivo e ampliam a cobertura. Contudo, velocidade e volume não transformam automaticamente uma saída tecnológica em evidência de auditoria suficiente e apropriada.
Os riscos que aumentam com a autonomia
Uma IA agente pode combinar modelos, conectores, bases internas e serviços externos. Essa arquitetura cria riscos que não existem, ou existem em menor intensidade, nas ferramentas tradicionais. Entre eles estão a opacidade do raciocínio, a produção de respostas diferentes para entradas semelhantes, a propagação de erros em escala, o acesso indevido a dados sigilosos e a execução de ações além do escopo autorizado.
Também há o risco de automation bias: a tendência humana de aceitar a conclusão da máquina porque ela parece sofisticada ou porque coincide com uma hipótese inicial. O IESBA ressalta que a responsabilidade pelo julgamento profissional permanece com o contador, independentemente do nível de automação utilizado.
Sete controles indispensáveis
- Inventário de ferramentas e casos de uso. A firma precisa saber quais modelos, versões, conectores e bases estão sendo utilizados.
- Classificação de risco. Uma IA que resume norma tem risco diferente de outra que seleciona amostras ou altera dados.
- Validação antes do uso. O sistema deve ser testado com bases conhecidas, erros intencionais e cenários-limite.
- Segregação de acessos. O agente deve receber apenas as permissões necessárias, preferencialmente sem capacidade de alterar registros de origem.
- Rastreabilidade. Entradas, instruções, saídas, versões e intervenções humanas precisam ser registradas.
- Revisão humana obrigatória. Conclusões relevantes não podem ser liberadas sem conferência por profissional competente.
- Monitoramento contínuo. Mudanças de modelo, comportamento ou qualidade dos dados exigem revalidação.
Como documentar o uso no trabalho
O papel de trabalho deve explicar a finalidade da ferramenta, os dados processados, as limitações conhecidas, os testes realizados e a forma de revisão. Também deve identificar quais resultados foram aceitos, ajustados ou descartados e por quê. Sem essa trilha, o auditor pode até ter uma conclusão correta, mas não consegue demonstrar como chegou a ela.
A questão técnica não é saber se a IA acertou uma vez. É demonstrar que o processo foi controlado, reproduzível e adequado ao objetivo do trabalho.
Checklist para o comitê de auditoria
- Quem aprovou o uso da ferramenta?
- Quais dados ela acessa e onde eles são armazenados?
- Como a precisão foi testada?
- Existe registro das versões e das instruções utilizadas?
- O agente pode executar ações ou apenas recomendar?
- Quem revisa as exceções e conclusões?
- Há protocolo para falha, vazamento ou comportamento inesperado?
Conclusão
A IA agente pode elevar a cobertura, a velocidade e a capacidade analítica da auditoria. O benefício, porém, depende de controles proporcionais à autonomia concedida. Quanto mais a tecnologia decide, seleciona ou executa, maior deve ser a evidência sobre sua confiabilidade e mais clara precisa ser a responsabilidade humana.
A Costa Nova Associados atua em auditoria forense e investigação contábil, perícia contábil e revisão independente de bases e memórias de cálculo. Para examinar um caso concreto, entre em contato.
Fontes técnicas consultadas
- IIA — Risk in Focus 2026 Global Summary
- IAASB — Technology Quality Management Roundtables
- IESBA — Emerging Technologies: Ethical Considerations
Conteúdo técnico da Costa Nova Associados, republicado na CN Advisors. Datas e exemplos do material original foram preservados. O escopo e a responsabilidade por cada trabalho são definidos na contratação.
Consultar a publicação original na Costa Nova ↗